quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Ela perdeu a perna em um acidente, mas escolheu valorizar a vida

Paola Antonini se tornou uma voz para as pessoas com deficiência. Foto: Reprodução/Instagram

Giorgia Cavicchioli,Yahoo Notícias - Em dezembro de 2014, Paola Antonini se preparava para fazer uma viagem quando sua vida mudou para sempre. Ela foi vítima de um grave acidente e precisou ter uma de suas pernas amputada. A partir daí, ela teve que reaprender muitas coisas.
Ela precisou se adaptar a uma perna nova e a sua realidade com a deficiência. Porém, em entrevista ao blog, ela diz que sempre encarou tudo como uma oportunidade de viver coisas novas e aproveitar sua existência.Depois disso, ela passou a compartilhar um pouco de sua rotina nas redes sociais e se tornou uma voz para pessoas com deficiência. Além disso, ela também passou a ser uma incentivadora daqueles que ainda não conseguiram ter o mesmo otimismo que ela sobre os desafios da vida.
“Aprendi muito, quando eu sofri o acidente, a valorizar o que realmente importa na vida”, explica em entrevista ao blog. Paola afirma que, todos os dias, ela tenta fazer algo diferente em sua vida e aproveitar todos os dias como se fossem os últimos.
Leia a entrevista completa:

Conte um pouco de como foi o acidente que você sofreu.
Paola Antonini: No dia 27 de dezembro de 2014, sofri um grave acidente em Belo Horizonte. Estava indo viajar de carro para Búzios. Saímos cedinho de casa e, quando eu ia colocar uma das malas no porta malas, uma motorista perdeu o controle do seu carro e me prensou contra a traseira do carro em que íamos viajar. Fui para o hospital sem saber ao certo o que aconteceria, achei que iria fazer uma cirurgia rápida que deixaria tudo “certinho” e depois eu continuaria a viagem. Que ilusão a minha, né? Foram 14 horas na mesa de operação. De acordo com as enfermeiras, a cirurgia foi a mais longa da história daquele hospital. No dia seguinte, mais precisamente às seis horas da manhã, recebi, pelos meus pais, a notícia de que, apesar de todas as tentativas dos médicos, minha perna esquerda precisou ser amputada e a direita ficou com uma cicatriz enorme pois precisaram tirar minha safena.

Como foi a experiência que você passou depois do acidente? Como foi a adaptação com a perna?
Paola: Sabe que levei tudo isso numa boa? A minha primeira resposta foi “graças a Deus, pelo menos eu estou viva”. É, eu não sabia como seria tudo. Não conhecia uma pessoa amputada, não sabia como era uma prótese ou se eu conseguiria andar novamente, correr e pular. Mas sabe? Eu decidi tentar, decidi me abrir para meu novo mundo e fazer o meu melhor para torná-la a melhor experiência possível. Com 20 anos a gente tem tantas inseguranças, né? Com nosso corpo, com nossas atitudes, etc. Mas naquele momento, tudo isso mudou, como se, num instante, eu tivesse amadurecido. Eu nunca me senti menos atraente por ter perdido a minha perna. Eu simplesmente passei a ver a beleza como algo totalmente diferente de como eu via antes. Mas eu não sabia isso de início, eu fui aprendendo. Eu escolhi ter o meu tempo.

Como foi esse processo?
Paola: Esperei uns dias para olhar para minha perna: primeiro toda enfaixada, depois sem faixa e, por último, me olhei no espelho. Confesso que era um pouco estranho. Estranho não. Diferente. Não estava acostumada a ser assim, mas nunca me assustei, eu simplesmente comecei a me acostumar que aquela era a nova Paola, uma Paola que viveria muitas coisas novas a partir daquele momento. Falando em limitações, desde o início acreditei que eu era bem maior que qualquer uma delas. Ao colocar uma prótese pela primeira vez, era difícil andar com ela, me equilibrar e suportar aquela dor tão grande.

E isso, como foi?
Paola: Em uma semana, já estava andando para todo lado porque eu nunca aceitei desistir e me entregar à dor. Um mês depois, resolvi que entraria no mar. Ouvi de todos os especialistas que aquilo seria muito difícil, que eu não estava preparada, que andar na areia era muito complicado e que eu deveria esperar. Mas para que esperar? Resolvi ir. De fato, foi tão difícil quanto eles me alertaram, talvez mais, mas a sensação de conseguir chegar no mar, entre tropeços, escorregões e tombos, foi a melhor do mundo. É algo que eu nunca vou esquecer, é como ver o mar pela primeira vez.

Como é sua vida depois disso?
Paola: Desde então, sempre invento várias coisas novas para fazer: dançar (que se tornou uma grande paixão), jogar tênis, mergulhar e até surfar. A maioria das atividades que tentei, eu nunca tinha tentado antes, mas surgiu em mim uma vontade enorme de curtir a vida, de aproveitar cada dia ao máximo e fazer algo novo todos os dias, nem que fosse experimentar uma comida diferente.

Quando que começou a postar sua rotina nas redes sociais? Por qual motivo achou que era importante?
Paola: Eu queria muito me aproximar das pessoas que estavam me acompanhando, vendo minha fotos. Então, eu resolvi criar algo, em que eu pudesse explicar melhor minha história e, com o tempo, fui compartilhando viagens, dicas e mensagens bacanas também. Eu gosto de falar que a rede social se transforma em uma voz, onde você pode disseminar pensamentos. Eu gosto de mostrar que tudo é possível e que podemos passar pelas dificuldades juntos, compartilhando sobre autoestima e experiências que possam contribuir positivamente. Sempre compartilhei a verdade e a minha realidade, foi algo bem natural e é muito legal receber o carinho de pessoas que se identificaram com algo que compartilhei. Aprendi muito, quando eu sofri o acidente, a valorizar o que realmente importa na vida.

Acha que você ajuda outras pessoas com deficiência a melhorarem a autoestima? O que você ouve dos seus seguidores nesse sentido?
Paola: Às vezes a gente perde muito tempo dando a importância pra coisas que não são tão importantes assim e, conforme o tempo vai passando, a gente percebe isso. Então, eu sempre tento passar que, realmente, a nossa aparência não é nada se comparado ao que somos por dentro. O que importa é o que temos por dentro, porque a aparência passa, as dificuldades passam.

Acha que é importante que, cada vez mais, as marcas invistam em ter influenciadores com deficiência como parceiros?
Paola: Hoje em dia, a moda está mais inclusiva, sim, mas acho que podemos melhorar. Estamos no início dessa inclusão e tem muito a acontecer para [a moda], realmente, se tornar inclusiva. Primeiro de tudo, a marca precisa pensar que não somos iguais, cada um tem um corpo e necessidade diferente. Seria muito legal as marcas incluírem diversidade nas campanhas, em desfiles… colocar uma pessoa mais baixa, uma plus size, por exemplo...

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